- Primeiro eu quero um encontro casual, desinteressado, eles não estão se procurando, entende? Ela não acredita em namoro, ele escreve contos sem saber pra quem. Ela é sempre aquela da roda que diz não precisar de garotos, já ele duvida alguém vá gostar de que escreve. Eles conversam, somam autores e combinam de dividir cervejas, há uma sintonia inexplicável.
- Mas eles se encontram?
- Não, isso demora um pouco. Não poderia ser tão fácil. Ele passa dias tentando descobrir quem é aquela menina de cabelos vermelhos que conheceu pelas fotos. As conversas deixam de ser superficiais quando começam a confidenciar planos, repartir medos. Até esse momento não aparece seus rostos, suas vozes são uma dúvida. "Será que ela tem sotaque?", "Ele pode ser meio fanho... gago, talvez". As cenas são em close fechado, na penumbra de dois quartos escuros e as batidas nos teclados que só param quando surge uma pergunta na tela: "Quando vai pagar as cervejas que me prometeu, menino?", fim do primeiro take.
- Eles marcam um primeiro encontro?
- Esse é o segundo, ele já furou uma vez. Disse que ia, que avisaria quando estivesse na frente do bar. Ela conferia o celular de cinco em cinco minutos...
- Como assim? Você mesmo disse que ela "não precisa de garotos"...
- E quem sabe explicar? Ela quase desistiu, mas uma banda legal iria tocar na cidade. É uma sexta a noite, uma sexta-feira de noite sem lua. Quando o celular toca, é ela. Uma voz tão doce e delicada que o convence a sair de casa - na verdade, o convenceria a fazer qualquer coisa depois disso. O bar é pequeno, rústico e com gente estranha pra todos os lados. No momento que eles se vêem eu quero que suba o som, um rock instrumental que abafe as conversas.
- Sobre o que eles conversam?
- Bebidas, remédios, lixeiras... não era isso que importava, na verdade. Ela não para de rir, ele traz mais cervejas. "Deus, como ela é linda" é a única coisa que consegue pensar. O som fica mais alto, a fumaça aos poucos toma conta da cena, as luzes explodem num frenezi melódico, um beijo.
- E depois?
- A sintonia... aquela sintonia de novo... nunca se foi, na verdade. Todo desconforto evapora, a mão delicada o puxa correndo de volta ao rock. Nessa parte eu quero o som muito alto, muita gente, fumaça, bebidas, arranhões, um vocalista louco deitado no palco e frases susssurradas com a sinceridade etílica das quatro da manhã. Fim do segundo take.
- No outro dia ninguém se lembra de nada?
- Longe disso, eles querem se ver, precisam se ver. Marcam um cinema, depois um jantar. O assunto é sempre novo, as ideias se completam, as mãos se encaixam. Eles passeiam a noite, ao redor de um parque e em instantes estão em Paris.
- Paris? Paris, na França?
- É, eles estão numa das avenidas parisienses, numa daquelas garoas características da década de 20. Eu quero que no fundo toque "Mr. Tambourine Man", do Bob Dylan. É uma bela música... Eles falam sobre Goethe, Bukowiski, Cervantes, von Trier, Chaplin, Hitchcock... só os dois numa Paris iluminada. Eles sentam num banco qualquer e se encaixam num abraço que parecia guardado. Ela encosta a cabeça em seu peito e ele sussurra um poema...
- "De tudo ao meu amor serei atento..."
- Esse! Vinicius! O mais piegas e arrebatador soneto etílico de toda a história. Cada frase... "Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto..."
- "Que mesmo em face de maior encanto, dele se encante mais meu pensamento"...
- Belíssimo! E quando ele termina, percebe que nada se compara aos olhinhos brilhando daquela menina de cabelos laranjas. E ela percebe que nenhum lugar no mundo é melhor que aquele abraço... até que a lágrima... a lágrima... uma lágrima escorre. Fim do terceiro take.
- E depois, eles brigam?
- Depois a trilha muda, eu quero Beatles! E a guitarra elétrica de "Blackbird", "Strawberry Fields Forever" e "All my loving" entorpecendo as cenas, os dois tropeçando nas ruas de uma Liverpool em preto e branco! De repente aquilo tudo ganha explicação nessas canções. Para ele, já é impossível falar de amor sem lembrar dela. E quando eles se despedem, a alegria transborda pelos olhos e em segundos ela corre em sua direção a procurar de um último beijo. Ela, uma ruivinha linda e sorridente... saia, meia arrastão e cigarros. Ele, cabelos bagunçados, calça xadrez e uma camisa de uma marca de whisky.
- Quando é isso?
- Ano novo! O primeiro reveillon juntos... imagine os fogos, os brindes... eles estão numa chácara com champagnes, vodkas e gargalhadas. Enquanto todos se divertem, os dois fogem. Fogem para perto de um e do outro. A música ao fundo, uma noite clara, os olhos dela, a boca dele. Ele promete, ela desdenha. Ela lembra, ele insiste. Ele beija, ela cede. Ela chora, ele abraça. Ele sorri, ela também. E num segundo eles aceitam ir para qualquer lugar, desde que juntos. "Quer namorar comigo?'. Fim do quarto take.
domingo, 5 de fevereiro de 2012
terça-feira, 20 de dezembro de 2011
A menina que roubava sonhos
Eu tenho um sonho bom, nele toca Bob Dylan. Estou deitado, abro os olhos e vejo um campo de flores. Rosas, vermelhas, amarelas e azuis. São violetas risonhas, belas tulipas, talvez margaridas e rosas românticas. Eu recolho minhas coisas e sigo.
Though I know that evenin's empire has returned into sand,
Vanished from my hand,
Left me blindly here to stand but still not sleeping.
Eu já conheço essa trilha, são os mesmos passos de ontem. No chão, em meio a grama rala, já pisada, se espalham cartas de Neruda à Vinicius, de Vinicius à Goethe. São palavras bonitas. Eu caminho entre os significados dessas cartas num rastro de saudade, a procura de um sorriso que não é meu.
My weariness amazes me, I'm branded on my feet,
I have no one to meet
And the ancient empty street's too dead for dreaming.
Logo a frente, onde finda a trilha, eu vejo uma menina de cabelo vermelho e vestido florido. Ela dança como dança quem não é visto, rodando seu vestido numa poesia que é só dela. Nasceu com isso. Com ela, também, está o sorriso que procuro, uma cesta e um pincel numa das mãos. Enquanto dança espalha as cartas, palavras bonitas. Com o pincel desenha sorrisos nas violetas, belas tulipas, talvez margaridas. As rosas não. Pra serem românticas, cria com um beijo.
Take me on a trip upon your magic swirlin' ship,
Eu já conheço essa trilha, são os mesmos passos de ontem. No chão, em meio a grama rala, já pisada, se espalham cartas de Neruda à Vinicius, de Vinicius à Goethe. São palavras bonitas. Eu caminho entre os significados dessas cartas num rastro de saudade, a procura de um sorriso que não é meu.
My weariness amazes me, I'm branded on my feet,
I have no one to meet
And the ancient empty street's too dead for dreaming.
Logo a frente, onde finda a trilha, eu vejo uma menina de cabelo vermelho e vestido florido. Ela dança como dança quem não é visto, rodando seu vestido numa poesia que é só dela. Nasceu com isso. Com ela, também, está o sorriso que procuro, uma cesta e um pincel numa das mãos. Enquanto dança espalha as cartas, palavras bonitas. Com o pincel desenha sorrisos nas violetas, belas tulipas, talvez margaridas. As rosas não. Pra serem românticas, cria com um beijo.
Take me on a trip upon your magic swirlin' ship,
My senses have been stripped, my hands can't feel to grip,
My toes too numb to step, wait only for my boot heels
To be wanderin'.
Vestida de primavera, sorriso de quem brinca, a menina de cabelos vermelhos carrega na cesta os sonhos de outros viajantes, poetas, boêmios, errantes... uma coleção de “bem-me-quer” e um punhado de dor. Naquele campo sem passado, entorpeço na miragem colorida desse folk, sem perguntas, afinal. E onde estou, fico, vendo o sol deitar no fundo. O campo ganha mais em cores a cada passo da menina-primavera. Ela segue sua dança, leva o sol para o próximo sonho e eu adormeço no colo da lua.
I'm ready to go anywhere, I'm ready for to fade
Vestida de primavera, sorriso de quem brinca, a menina de cabelos vermelhos carrega na cesta os sonhos de outros viajantes, poetas, boêmios, errantes... uma coleção de “bem-me-quer” e um punhado de dor. Naquele campo sem passado, entorpeço na miragem colorida desse folk, sem perguntas, afinal. E onde estou, fico, vendo o sol deitar no fundo. O campo ganha mais em cores a cada passo da menina-primavera. Ela segue sua dança, leva o sol para o próximo sonho e eu adormeço no colo da lua.
I'm ready to go anywhere, I'm ready for to fade
Into my own parade, cast your dancing spell my way,
I promise to go under it.Eu, Bob Dylan e a Lua, nada mais que isso.
Hey! Mr. Tambourine Man, play a song for me...
“Pilote a seu favor” faz treinamento com a guarda civil
Campanha
promovida pelo jornal O Diário e parceiros quer alertar para os fatores que
colocam o motociclista em situações de risco
Foi realizada na última quinta-feira, 01, a primeira de
uma série de ações educativas que fazem parte da campanha de conscientização no
trânsito “Vida: Pilote a seu favor”. Promovida pelo Grupo O Diário em parceria
com Sindimotos e Beto Produções, a campanha tem como apoiadores a Honda Freeway,
K1 Motors e a Eriton Motos.
O curso tem carga horária de oito
horas, dividas entre quatro teóricas e quatro práticas. A primeira palestra foi
realizada na sala de treinamentos da Honda Freeway e teve como público cerca de
20 agentes da guarda civil. Para o diretor comercial da concessionária,
Alessandro Piero, as ações educativas somam em valor para a classe de
motociclistas da cidade. “O motociclista tem que
entender que ele não é só vítima, mas parte integrante desse processo que é o
trânsito.”
Com foco na segurança do motociclista, os
treinamentos apresentam desde os cuidados básicos com itens de segurança até
técnicas de pilotagem defensiva em condições adversas. Segundo o instrutor
Carlos Beto, da Beto Promoções, o objetivo é alertar para os inúmeros fatores
que colocam o motociclista em situações de risco.
“Não é só o modo como o motociclista pilota, é
preciso que ele tenha consciência do tempo de reação do seu cérebro, como agir
e quanto espaço ele precisa para o caso de uma frenagem de emergência”, explica.
Aspectos relativos à condição do motociclista também são abordados no curso.
“Fazemos um cálculo para saber a quilometragem mensal percorrida por cada um.
Com base nisso, estabelecemos uma média segura que evita o desgaste
excessivo.”, completa.
A segunda parte do treinamento é
feita em pista montada no terreno do antigo terminal urbano. Para Beto, porém,
grande parte dos motociclistas maringaenses apresenta falhas primárias, como má
postura sobre a moto, posicionamento inadequado na via e uso indevido dos
freios. “São falhas na formação do condutor, descuidos simples que só
contribuem para o alto número de acidentes na cidade”, completa. De janeiro a
novembro deste ano já foram registradas 76 mortes em
Maringá, 46 eram motociclistas.
Serviço:
Pessoas e
empresas interessadas em participar devem entrar em contato com Beto Produções,
nos telefones: (44) 4141-4826 e (44) 9134 0817. As inscrições são gratuitas.
sexta-feira, 9 de dezembro de 2011
Choppstorm, com PC Siqueira, atrai mais de 450 pessoas em Maringá
Quarta-feira e, mesmo não tendo rodada de futebol, a chopperia estava lotada. Cerca de 450 pessoas, grande parte adolescentes, se misturavam entre as mesas e a movimentação dos garçons. O vai e vem das canecas só interrompia quando, de uma janela interna, surgia um sujeito franzino e descabelado vestindo camisa xadrez e óculos retrô.
Enquanto o público aguardava, PC Siqueira aproveitava para tirar fotos e comentar nas redes sociais. O comentário era visto e respondido quase que instantaneamente por quem estava no bar. Essa relação direta com o público e sua transformação em “webcelebridade” eram, justamente, os temas do 1º Choppstorm, ciclo de debates sobre comunicação e propaganda promovido pelo Publistorm, blog parceiro do jornal O Diário.
“O PC tem carisma, o que atrai muita gente. Ele descobriu como fazer sucesso estando na tv, web, publicidade”, explica Felipe Agnello, criador do Publistorm e um mediador do evento. Segundo Agnello, muita gente que o conhece só pelos vídeos, se surpreende com o conhecimento que PC Siqueira esboça numa conversa comum. “Ele sabe o que está acontecendo, participa disso tudo e está ciente de toda essa mídia em cima dele”.
Sob uma chuva de flashs e parando a cada metro para atender a pedidos de foto, PC Siqueira chegou ao palco e se juntou aos entrevistadores: Jany Lima, coordenadora artística e apresentadora da Mix FM, Wilson Teixeira, diretor de Marketing do grupo O Diário, Ivan Tomita gerente de Produção da Bandeirantes TV Maringá e Kim Archette, apresentador do programa Quinquilharias, também da TV Maringá. As perguntas, que iam desde sua ascensão na rede até sua preferência por dinossauros, também podiam ser feitas pelo twitter por meio da hashtag #PCnoCHOPPSTORM.
Não fossem os vídeos postados em seu canal no youtube, o paulista natural de Guarulhos Paulo César Siqueira continuaria sendo um ilustrador de que trabalhava de domingo a domingo em seu quarto. “Eu fiz como qualquer pessoa faria com uma câmera em casa: liguei e falei”. Depois que postou o primeiro vídeo, em fevereiro de 2010, seu videolog “Maspoxavida” já teve mais de 34 milhões de acessos e seu perfil no twitter já ultrapassou 1 milhão de seguidores.
“São varias pessoas que se identificam com o que você tá fazendo e começam a valorizar aquilo que você diz”, respondeu. Com a fama e a agenda que vieram a seguir, o PC ilustrador deu lugar ao vloggeiro. Em pouco mais de um ano, a imagem de PC Siqueira passou a ser vendida em comerciais na web, tv e eventos. “Tem muita procura, mesmo. Isso me permite escolher quais produtos eu vou fazer, aqueles que eu indicaria mesmo”, completa. Segundo adiantou o blogueiro do odiario.com, Fábio Linjardi, só para o evento de ontem foram R$ 5 mil, mais despesas de alimentação e hospedagem.
“Não dá pra criar um vlog e dizer: ‘Vou trabalhar com isso’. É só um lugar democrático que você coloca suas ideias e ninguém vai te interromper”, respondeu, afirmando não ter ideia de porque outros vloggeiros não alcançaram o mesmo sucesso. Ainda na metade do evento, a hashtag #PCnoCHOPPSTORM já estava no trend topics Brasil, os assuntos mais comentados do twitter. A essa altura, já passavam de trinta os adolescentes de pé ao lado do palco, incansáveis.
Todos queriam ouvi-lo, mas o som não ajudou muito. Para responder uma das perguntas, PC foi até a beirada do palco e sentou-se ao lado da fã. “Bom” para Nina Desenne, 14, que mal conseguia falar depois disso. “Achei muito legal. É um bate papo... aqui é um bar, estou com meus amigos e ele sentou do meu lado”. Quando perguntada sobre o porque de PC ser tão importante, a estudante não gaguejou. “A gente percebe que ele não pensa como os outros. Quando tem um assunto que qualquer pessoa diria algo normal, ele vai lá e fala algo completamente diferente”, completa.
Antes mesmo de acabar as perguntas já não era possível contar o número de pessoas que cercavam o palco. Entre o encerramento e a chegada até o camarim foram 17 minutos e 43 fotos - contando com as quatro que precisou fazer com funcionários da chopperia quando tentou escapar pela cozinha. Sobre o assédio, PC diz ter noção que “isso acaba”, mas não tem medo de, com o tempo, ser só mais um rostinho bonito da internet.
domingo, 20 de novembro de 2011
Rei de mim
Olhe pra ela, contando moedas. É
uma boa mãe até, pena que bebe. Bebe pra esquecer dessas moedas talvez. Ela
bebia mais, parou quando nasceu o mais novo. Sustentar cinco é difícil. Queria
um trabalho, parece que semana passada quase chamaram ela para um supermercado
do centro. Ela usou perfume, lavou a roupa da missa, disse que voltava com
doces. E voltou. Os pequenos adoraram. Mas eu percebi que o sorriso ela deixou
lá.
Olhe pra ela, tão preocupada com
todas as coisas. É uma boa mulher. Faz-se de mãe tão de repente. Queria um
emprego. Se fosse alguns anos mais nova talvez conseguisse. Não que seja velha,
mas ela não se encaixa mais. Esguia, magricela, não é bonita. “Eu era linda, a
mais bonita da classe” mostrou uma vez em fotos sobre a cama. Eu vi ela
chorando aquele dia. Carregar cinco é difícil. Deu um aperto no peito. Ela me
contou dos namorados, do pai ciumento. “Seu avô tocou ele de casa com uma pá!
Uma pá, acredita?” e ria seus dentes tortos.
Olhe pra ela, mesmo magricela
bate doído. Vara, cinta, fio, vassoura. Quando eu tô perto eu seguro, não deixo
bater no bebê. Aí ela vai para o quarto e se tranca. A maior faz a janta,
feijão com farinha e cebola. Quando tem batata é festa. Ela fritou uma vez pra
nós e disse que é igual comida de estrangeiro. Teve uma noite que ela não
bebeu, nos levou na laje e contou sobre as estrelas. Disse que cada um de nós
tem uma lá, que fica lá de cima vendo o que a gente não vê.
Eu acho que a minha tá vendo muita coisa.
Eu acho que a minha tá vendo muita coisa.
Eles olham pra ela contando
defeitos. Todos aqui nesse ônibus, com lugares pra chegar, compromissos, contas
pra pagar. Gostam de estar do nosso lado, assim podem ver alguém de cima.
Qualquer um com seus pobremas e problemas. Notam nossos tênis furados, nossas
meias coloridas, nossas camisetas manchadas de rosa, nossos shorts menores que
o corpo. Notam a calcinha dela pra fora da calça enquanto ela conta trocados.
Não tem nada a ver com a nossa cor. A coisa tá no olho deles, eu vi.
Olhem só para ela, chacoalhando
trocados no bolso, pendurando as crianças nos ombros, desviando de todos para
alcançar a porta do ônibus, sem economizar cotovelos e gritos para os menores.
Carregar cinco é difícil, dá trabalho. Eu sei. Ela arruma a roupinha do bebê,
mas deixa o nariz sujo, tem que limpar, ele fica incomodado. Ele passou a noite
com febre, piorou de manhã. Agora vai no médico.
Eles desceram.
Não desço.
Ela me grita de fora do ônibus.
Não ouço.
O bebê tá chorando, os menores
com medo.
Fecho os olhos.
Carregar cinco é difícil.
Vou procurar minha estrela.
Carregar quatro é mais fácil.
quinta-feira, 27 de outubro de 2011
Tradição para levar o prêmio
João Paulo Santos
Da série de matérias sobre o "Festival Prato de Butiquim", publicada no jornal O Diário e no portal odiario.com no dia 24 de outubro
Quando José Rafael Pacheco foi convidado a participar do Festival
Prato de Butiquim, não pensou duas vezes: o caldo de mocotó seria o
representante do Bar do Rafa na disputa. A especialidade da casa promete
ter com o júri o mesmo sucesso que faz com o público há quase 25 anos e
conquistar o prêmio de melhor prato de butiquim de Maringá.
O favoritismo, contudo, ele deixa de lado. Rafa, como é conhecido, diz que o sucesso do prato é resultado do cuidado que aprendeu a ter em cada etapa. "Nós só usamos água quente no preparo e tiramos a gordura, que deixa o caldo pesado e não tem química alguma. Esses detalhes deixam o sabor mais puro, mais leve", revela.
Para que sejam servidas no almoço, as peças de mocotó precisam
cozinhar por, pelo menos, três horas, até que o caldo fique "apurado" e
os ossos se soltem. "Desde as oito [da manhã] já tem panela no fogo. A casa abre às 11 e
a qualquer hora que o cliente vier tem caldo pronto". Servido na
caneca e decorado com cheiro verde e salsinha, o caldo é servido
acompanhado de farinha e pão. A pimenta varia conforme o gosto do
cliente.
A paixão com que fala do prato é mesma que rege o bar desde a sua
criação, em 1987. Na época funcionário de um banco, Rafa trocou a
segurança do terno e gravata pelo sonho de ter um estabelecimento
próprio. Com uma "portinha" e apenas uma funcionária, começou a atender e
entender do assunto. "Mudava governo, faltava produto e a gente tinha
que continuar atendendo. Graças a Deus nunca passei por um momento de
crise".
Com o sucesso do caldo de mocotó nos dias frios, o Bar do Rafa
garantia sustento para as outras estações do ano. Esse controle em
situações difíceis Rafa aprendeu desde cedo, plantando e colhendo soja
no sítio de parentes. Da origem simples ele diz carregar a humildade, que passa para
clientes e funcionários. "Sempre digo que a gente tem que atender bem,
não importa a situação. Desse jeito o cliente gosta do lugar, se sente
bem aqui e volta".
A estratégia deu certo, o bar cresceu e hoje chega contar com até doze funcionários em dias de grande movimento. "E ainda falta, tem vez que sai até duzentas porções no mesmo dia.
Isso só de mocotó, a gente também serve rabada, dobradinha e outros
caldos". Se há planos para o futuro? Para Rafa, o principal plano é
"manter o ritmo sem perder a qualidade".
Para conferir
Bar do Rafa: Av. Pedro Taques, 1774, Jardim Alvorada.
Telefone: 3246-7085
Bar do Rafa: Av. Pedro Taques, 1774, Jardim Alvorada.
Telefone: 3246-7085
segunda-feira, 10 de outubro de 2011
A metade que falta
Oi, tudo bem? Queria ligar, mas... bom, agora não dá né? Eu só queria dizer que tá tudo bem por aqui, eu consegui aquela vaga que comentei contigo há um tempo atrás, lembra? Naquele dia que você me levou para ver a lua e deitamos no capô do seu carro. Você me dizia que não tinha muito tempo, que queria ir logo para a viagem que programou na faculdade e eu falando de fast-food com um copo de refrigerante na mão. Você ria daquele seu jeito de rir com o meu desinteresse, falava que eu não sabia o tamanho do mundo. Que era muito maior que a nossa cidadezinha... eu achava aquilo viajado, mas agora entendo. Eu conheço o mundo agora e ele me dá medo.
Você dizia que não tinha medo de nada, mas eu sei que não gostava de ficar sozinho.
Todos te chamavam de louco, inclusive eu... mas também, que ideias eram aquelas? Mas é dessa loucura que eu sinto falta, sabia? As coisas aqui são muito sóbrias. A vida é muito cinza do alto desse prédio e Roma não é das mais simpáticas a brasileiros. Esses dias me peguei pensando como seria se você estivesse aqui. Você faria piada com o cara da banca de jornal, depois compraríamos um whisky barato e beberíamos até um não agüentar levar o outro para casa. Encontraríamos um pub – ou seja lá como chamam isso aqui, não tive tempo de conhecer – e faríamos amizade com uma estrangeira que fuma Dunhill. Eu ficaria com ciúmes e você iria rir, como sempre ria das minhas crises de ciúmes.
Você não dormiu com aquela garota do Tribo’s, não é mesmo?
Eu só soube semana passada, mas seu pai esteve por aqui. Queria ter visto ele, poderíamos conversar sobre política e futebol como aqueles dias na sua casa. Eu tentava dar atenção pra ele e você, da cozinha, ficava imitando animais. Eu ria e seu pai não entendia nada, coitado. Sinto falta dele. Quando voltar ao Brasil, não posso esquecer de passar na casa dos seus pais... vou levar um jornal daqui, ele ficava todo orgulhoso em ver o nosso nome, lembra?
Eu fiquei com os seus óculos redondos, você não se importa né?
Semana passada eu acabei com um Jack Daniels que tinha guardado. Pensei na gente e chorei igual criança. Eu não sou dessas que bebe e chora, você sabe, mas aquele dia foi diferente... era o nosso dia, lembra? Eu sentei no sofá e escrevi um poema. É meio piegas e deve ter umas três frases de Vinicius, mas quem liga? São umas frases que eu decorei de tanto você escrever no vidro do quarto. Eu comprei um toca discos só pra ouvir aquele LP de bossa nova que você me deu. Tem noites que eu não consigo dormir e coloco para tocar. Sei lá. Parece que tô com você.
Ele me ligou esses dias. Disse que tá com saudade. Mandei ele para o inferno e disse que cinco anos tinham sido o bastante, que acabou.
Fiquei pensando em como seria se tivesse escolhido passar aquele reveillon no seu apartamento. Quem sabe eu teria percebido que você tava doente, que estava mais magro que o normal. Que o seu cabelo estava caindo. Que já sorria com dificuldade. Eu teria notado, meu amor, a gente teria feito algo. Me contaram que sua mãe te encontrou deitado na escrivaninha, sorrindo.
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