terça-feira, 20 de dezembro de 2011

“Pilote a seu favor” faz treinamento com a guarda civil

Campanha promovida pelo jornal O Diário e parceiros quer alertar para os fatores que colocam o motociclista em situações de risco

Foi realizada na última quinta-feira, 01, a primeira de uma série de ações educativas que fazem parte da campanha de conscientização no trânsito “Vida: Pilote a seu favor”. Promovida pelo Grupo O Diário em parceria com Sindimotos e Beto Produções, a campanha tem como apoiadores a Honda Freeway, K1 Motors e a Eriton Motos. 

O curso tem carga horária de oito horas, dividas entre quatro teóricas e quatro práticas. A primeira palestra foi realizada na sala de treinamentos da Honda Freeway e teve como público cerca de 20 agentes da guarda civil. Para o diretor comercial da concessionária, Alessandro Piero, as ações educativas somam em valor para a classe de motociclistas da cidade. “O motociclista tem que entender que ele não é só vítima, mas parte integrante desse processo que é o trânsito.”

Com foco na segurança do motociclista, os treinamentos apresentam desde os cuidados básicos com itens de segurança até técnicas de pilotagem defensiva em condições adversas. Segundo o instrutor Carlos Beto, da Beto Promoções, o objetivo é alertar para os inúmeros fatores que colocam o motociclista em situações de risco.

“Não é só o modo como o motociclista pilota, é preciso que ele tenha consciência do tempo de reação do seu cérebro, como agir e quanto espaço ele precisa para o caso de uma frenagem de emergência”, explica. Aspectos relativos à condição do motociclista também são abordados no curso. “Fazemos um cálculo para saber a quilometragem mensal percorrida por cada um. Com base nisso, estabelecemos uma média segura que evita o desgaste excessivo.”, completa.

A segunda parte do treinamento é feita em pista montada no terreno do antigo terminal urbano. Para Beto, porém, grande parte dos motociclistas maringaenses apresenta falhas primárias, como má postura sobre a moto, posicionamento inadequado na via e uso indevido dos freios. “São falhas na formação do condutor, descuidos simples que só contribuem para o alto número de acidentes na cidade”, completa. De janeiro a novembro deste ano já foram registradas 76 mortes em Maringá, 46 eram motociclistas.

Serviço:
Pessoas e empresas interessadas em participar devem entrar em contato com Beto Produções, nos telefones: (44) 4141-4826 e (44) 9134 0817.  As inscrições são gratuitas.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Choppstorm, com PC Siqueira, atrai mais de 450 pessoas em Maringá

Matéria para o portal odiario.com, postada aqui.

Quarta-feira e, mesmo não tendo rodada de futebol, a chopperia estava lotada. Cerca de 450 pessoas, grande parte adolescentes, se misturavam entre as mesas e a movimentação dos garçons. O vai e vem das canecas só interrompia quando, de uma janela interna, surgia um sujeito franzino e descabelado vestindo camisa xadrez e óculos retrô.

Enquanto o público aguardava, PC Siqueira aproveitava para tirar fotos e comentar nas redes sociais. O comentário era visto e respondido quase que instantaneamente por quem estava no bar. Essa relação direta com o público e sua transformação em “webcelebridade” eram, justamente, os temas do 1º Choppstorm, ciclo de debates sobre comunicação e propaganda promovido pelo Publistorm, blog parceiro do jornal O Diário.

“O PC tem carisma, o que atrai muita gente. Ele descobriu como fazer sucesso estando na tv, web, publicidade”, explica Felipe Agnello, criador do Publistorm e um mediador do evento. Segundo Agnello, muita gente que o conhece só pelos vídeos, se surpreende com o conhecimento que PC Siqueira esboça numa conversa comum. “Ele sabe o que está acontecendo, participa disso tudo e está ciente de toda essa mídia em cima dele”.

Sob uma chuva de flashs e parando a cada metro para atender a pedidos de foto, PC Siqueira chegou ao palco e se juntou aos entrevistadores: Jany Lima, coordenadora artística e apresentadora da Mix FM, Wilson Teixeira, diretor de Marketing do grupo O Diário, Ivan Tomita gerente de Produção da Bandeirantes TV Maringá e Kim Archette, apresentador do programa Quinquilharias, também da TV Maringá. As perguntas, que iam desde sua ascensão na rede até sua preferência por dinossauros, também podiam ser feitas pelo twitter por meio da hashtag #PCnoCHOPPSTORM.

Não fossem os vídeos postados em seu canal no youtube, o paulista natural de Guarulhos Paulo César Siqueira continuaria sendo um ilustrador de que trabalhava de domingo a domingo em seu quarto. “Eu fiz como qualquer pessoa faria com uma câmera em casa: liguei e falei”. Depois que postou o primeiro vídeo, em fevereiro de 2010, seu videolog “Maspoxavida” já teve mais de 34 milhões de acessos e seu perfil no twitter já ultrapassou 1 milhão de seguidores.

“São varias pessoas que se identificam com o que você tá fazendo e começam a valorizar aquilo que você diz”, respondeu. Com a fama e a agenda que vieram a seguir, o PC ilustrador deu lugar ao vloggeiro. Em pouco mais de um ano, a imagem de PC Siqueira passou a ser vendida em comerciais na web, tv e eventos. “Tem muita procura, mesmo. Isso me permite escolher quais produtos eu vou fazer, aqueles que eu indicaria mesmo”, completa. Segundo adiantou o blogueiro do odiario.com, Fábio Linjardi, só para o evento de ontem foram R$ 5 mil, mais despesas de alimentação e hospedagem.

“Não dá pra criar um vlog e dizer: ‘Vou trabalhar com isso’. É só um lugar democrático que você coloca suas ideias e ninguém vai te interromper”, respondeu, afirmando não ter ideia de porque outros vloggeiros não alcançaram o mesmo sucesso. Ainda na metade do evento, a hashtag #PCnoCHOPPSTORM já estava no trend topics Brasil, os assuntos mais comentados do twitter. A essa altura, já passavam de trinta os adolescentes de pé ao lado do palco, incansáveis.

Todos queriam ouvi-lo, mas o som não ajudou muito. Para responder uma das perguntas, PC foi até a beirada do palco e sentou-se ao lado da fã. “Bom” para Nina Desenne, 14, que mal conseguia falar depois disso. “Achei muito legal. É um bate papo... aqui é um bar, estou com meus amigos e ele sentou do meu lado”. Quando perguntada sobre o porque de PC ser tão importante, a estudante não gaguejou. “A gente percebe que ele não pensa como os outros. Quando tem um assunto que qualquer pessoa diria algo normal, ele vai lá e fala algo completamente diferente”, completa.

Antes mesmo de acabar as perguntas já não era possível contar o número de pessoas que cercavam o palco. Entre o encerramento e a chegada até o camarim foram 17 minutos e 43 fotos - contando com as quatro que precisou fazer com funcionários da chopperia quando tentou escapar pela cozinha. Sobre o assédio, PC diz ter noção que “isso acaba”, mas não tem medo de, com o tempo, ser só mais um rostinho bonito da internet.

domingo, 20 de novembro de 2011

Rei de mim


Olhe pra ela, contando moedas. É uma boa mãe até, pena que bebe. Bebe pra esquecer dessas moedas talvez. Ela bebia mais, parou quando nasceu o mais novo. Sustentar cinco é difícil. Queria um trabalho, parece que semana passada quase chamaram ela para um supermercado do centro. Ela usou perfume, lavou a roupa da missa, disse que voltava com doces. E voltou. Os pequenos adoraram. Mas eu percebi que o sorriso ela deixou lá.

Olhe pra ela, tão preocupada com todas as coisas. É uma boa mulher. Faz-se de mãe tão de repente. Queria um emprego. Se fosse alguns anos mais nova talvez conseguisse. Não que seja velha, mas ela não se encaixa mais. Esguia, magricela, não é bonita. “Eu era linda, a mais bonita da classe” mostrou uma vez em fotos sobre a cama. Eu vi ela chorando aquele dia. Carregar cinco é difícil. Deu um aperto no peito. Ela me contou dos namorados, do pai ciumento. “Seu avô tocou ele de casa com uma pá! Uma pá, acredita?” e ria seus dentes tortos.

Olhe pra ela, mesmo magricela bate doído. Vara, cinta, fio, vassoura. Quando eu tô perto eu seguro, não deixo bater no bebê. Aí ela vai para o quarto e se tranca. A maior faz a janta, feijão com farinha e cebola. Quando tem batata é festa. Ela fritou uma vez pra nós e disse que é igual comida de estrangeiro. Teve uma noite que ela não bebeu, nos levou na laje e contou sobre as estrelas. Disse que cada um de nós tem uma lá, que fica lá de cima vendo o que a gente não vê.

Eu acho que a minha tá vendo muita coisa.

Eles olham pra ela contando defeitos. Todos aqui nesse ônibus, com lugares pra chegar, compromissos, contas pra pagar. Gostam de estar do nosso lado, assim podem ver alguém de cima. Qualquer um com seus pobremas e problemas. Notam nossos tênis furados, nossas meias coloridas, nossas camisetas manchadas de rosa, nossos shorts menores que o corpo. Notam a calcinha dela pra fora da calça enquanto ela conta trocados. Não tem nada a ver com a nossa cor. A coisa tá no olho deles, eu vi.

Olhem só para ela, chacoalhando trocados no bolso, pendurando as crianças nos ombros, desviando de todos para alcançar a porta do ônibus, sem economizar cotovelos e gritos para os menores. Carregar cinco é difícil, dá trabalho. Eu sei. Ela arruma a roupinha do bebê, mas deixa o nariz sujo, tem que limpar, ele fica incomodado. Ele passou a noite com febre, piorou de manhã. Agora vai no médico.

Eles desceram.

Não desço.

Ela me grita de fora do ônibus.

Não ouço.

O bebê tá chorando, os menores com medo.

Fecho os olhos.

Carregar cinco é difícil.

Vou procurar minha estrela.

Carregar quatro é mais fácil.

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Tradição para levar o prêmio

João Paulo Santos

 Da série de matérias sobre o "Festival Prato de Butiquim", publicada no jornal O Diário e no portal odiario.com no dia 24 de outubro 

Quando José Rafael Pacheco foi convidado a participar do Festival Prato de Butiquim, não pensou duas vezes: o caldo de mocotó seria o representante do Bar do Rafa na disputa. A especialidade da casa promete ter com o júri o mesmo sucesso que faz com o público há quase 25 anos e conquistar o prêmio de melhor prato de butiquim de Maringá.

O favoritismo, contudo, ele deixa de lado. Rafa, como é conhecido, diz que o sucesso do prato é resultado do cuidado que aprendeu a ter em cada etapa. "Nós só usamos água quente no preparo e tiramos a gordura, que deixa o caldo pesado e não tem química alguma. Esses detalhes deixam o sabor mais puro, mais leve", revela.

Para que sejam servidas no almoço, as peças de mocotó precisam cozinhar por, pelo menos, três horas, até que o caldo fique "apurado" e os ossos se soltem. "Desde as oito [da manhã] já tem panela no fogo. A casa abre às 11 e a qualquer hora que o cliente vier tem caldo pronto". Servido na caneca e decorado com cheiro verde e salsinha, o caldo é servido acompanhado de farinha e pão. A pimenta varia conforme o gosto do cliente.


A paixão com que fala do prato é mesma que rege o bar desde a sua criação, em 1987. Na época funcionário de um banco, Rafa trocou a segurança do terno e gravata pelo sonho de ter um estabelecimento próprio. Com uma "portinha" e apenas uma funcionária, começou a atender e entender do assunto. "Mudava governo, faltava produto e a gente tinha que continuar atendendo. Graças a Deus nunca passei por um momento de crise".


Com o sucesso do caldo de mocotó nos dias frios, o Bar do Rafa garantia sustento para as outras estações do ano. Esse controle em situações difíceis Rafa aprendeu desde cedo, plantando e colhendo soja no sítio de parentes. Da origem simples ele diz carregar a humildade, que passa para clientes e funcionários. "Sempre digo que a gente tem que atender bem, não importa a situação. Desse jeito o cliente gosta do lugar, se sente bem aqui e volta".


A estratégia deu certo, o bar cresceu e hoje chega contar com até doze funcionários em dias de grande movimento. "E ainda falta, tem vez que sai até duzentas porções no mesmo dia. Isso só de mocotó, a gente também serve rabada, dobradinha e outros caldos". Se há planos para o futuro? Para Rafa, o principal plano é "manter o ritmo sem perder a qualidade".


Para conferir
Bar do Rafa: Av. Pedro Taques, 1774, Jardim Alvorada.
Telefone: 3246-7085

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

A metade que falta

Oi, tudo bem? Queria ligar, mas... bom, agora não dá né?  Eu só queria dizer que tá tudo bem por aqui, eu consegui aquela vaga que comentei contigo há um tempo atrás, lembra? Naquele dia que você me levou para ver a lua e deitamos no capô do seu carro. Você me dizia que não tinha muito tempo, que queria ir logo para a viagem que programou na faculdade e eu falando de fast-food com um copo de refrigerante na mão. Você ria daquele seu jeito de rir com o meu desinteresse, falava que eu não sabia o tamanho do mundo. Que era muito maior que a nossa cidadezinha... eu achava aquilo viajado, mas agora entendo. Eu conheço o mundo agora e ele me dá medo.

Você dizia que não tinha medo de nada, mas eu sei que não gostava de ficar sozinho.

Todos te chamavam de louco, inclusive eu... mas também, que ideias eram aquelas? Mas é dessa loucura que eu sinto falta, sabia? As coisas aqui são muito sóbrias. A vida é muito cinza do alto desse prédio e Roma não é das mais simpáticas a brasileiros. Esses dias me peguei pensando como seria se você estivesse aqui. Você faria piada com o cara da banca de jornal, depois compraríamos um whisky barato e beberíamos até um não agüentar levar o outro para casa. Encontraríamos um pub – ou seja lá como chamam isso aqui, não tive tempo de conhecer – e faríamos amizade com uma estrangeira que fuma Dunhill. Eu ficaria com ciúmes e você iria rir, como sempre ria das minhas crises de ciúmes.

Você não dormiu com aquela garota do Tribo’s, não é mesmo?

Eu só soube semana passada, mas seu pai esteve por aqui. Queria ter visto ele, poderíamos conversar sobre política e futebol como aqueles dias na sua casa. Eu tentava dar atenção pra ele e você, da cozinha, ficava imitando animais. Eu ria e seu pai não entendia nada, coitado. Sinto falta dele. Quando voltar ao Brasil, não posso esquecer de passar na casa dos seus pais... vou levar um jornal daqui, ele ficava todo orgulhoso em ver o nosso nome, lembra?

Eu fiquei com os seus óculos redondos, você não se importa né?

Semana passada eu acabei com um Jack Daniels que tinha guardado. Pensei na gente e chorei igual criança. Eu não sou dessas que bebe e chora, você sabe, mas aquele dia foi diferente... era o nosso dia, lembra? Eu sentei no sofá e escrevi um poema. É meio piegas e deve ter umas três frases de Vinicius, mas quem liga? São umas frases que eu decorei de tanto você escrever no vidro do quarto. Eu comprei um toca discos só pra ouvir aquele LP de bossa nova que você me deu. Tem noites que eu não consigo dormir e coloco para tocar. Sei lá. Parece que tô com você.

Ele me ligou esses dias. Disse que tá com saudade. Mandei ele para o inferno e disse que cinco anos tinham sido o bastante, que acabou.

Fiquei pensando em como seria se tivesse escolhido passar aquele reveillon no seu apartamento. Quem sabe eu teria percebido que você tava doente, que estava mais magro que o normal. Que o seu cabelo estava caindo. Que já sorria com dificuldade. Eu teria notado, meu amor, a gente teria feito algo. Me contaram que sua mãe te encontrou deitado na escrivaninha, sorrindo.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

A (a)posta do Santo

 

Da série de matérias sobre o "Festival Prato de Butiquim", publicada no jornal O Diário e no portal odiario.com no dia 06 de outubro

Já na entrada do bar você percebe a diferença, a recepção é feita ao som de Mart’nália e o ambiente decorado entre o rústico da madeira e a delicadeza de letras à mão, gravadas na parede. Na batida leve do afro samba, você pode aproveitar para conhecer a “Posta Marinada do Santo”, prato que representa o Santo Bar no Festival Prato de Butiquim, que será realizado em novembro.
 
Enquanto aguarda o preparo – tudo é feito na hora – a sugestão são as famosas batatas em conserva, temperadas com azeite, orégano e sal. Para provar do estilo musical da casa, você espera na companhia de Paula Toller, Tulipa Ruiz ou quem sabe um blues – o “setlist” é recheado. Na cozinha o corte do lagarto, chamado de posta, vai ao fogo.
 
“Para ser servido à noite, a carne descansou o dia todo em molho de azeite com cebola picada e ervas finas”, explica Hamilton Mariano, organizador de eventos e gerente do Santo. Quanto mais tempo a peça “marinar”, mais sabor empresta do tempero. Mariano entende, mas quem toma conta da cozinha é a esposa, Val Fuentes, que se diz apaixonada por culinária.
 
Artista plástica, Val coordenava um ateliê e, ao fim das aulas, reunia as alunas para saborear alguns pratos. Nos encontros, mostrava o que aprendeu com os pais, donos de restaurante. A brincadeira começou a virar tradição e surgiu a ideia de, quem sabe, profissionalizar o projeto. “Mas faltava o lugar”, conta Mariano. “Como sempre moramos ali perto, na Humaitá, passávamos de carro e comentávamos sobre a estrutura, o local”, lembra.
 
 Quando o imóvel que queriam foi desocupado, há cerca de cinco anos, não demorou uma tarde até que o casal, junto com o filho Elton, fechasse negócio. “A ideia era fazer algo diferente, um bar que não fosse o estilo ‘pegapacapá’, comum por aqui”. O projeto encontrou no “setlist” e na decoração a forma de criar o ambiente, e no nome “Santo” o modo de deixar declarado a que veio. Nasceu o Santo Bar e, a partir dele, projetos como o “Sambinha pro Santo”, organizado por Elton.
 
O cardápio diferenciado, ditado por Val e seguido à risca por duas cozinheiras, acompanha a premissa da casa – na cozinha não se vê fritura. “A gente queria que fosse um bar com algo a mais, com pratos mais substanciosos”, explica Mariano. Com a promessa de “cerveja mais gelada de Maringá”, a posta marinada chega à mesa, decorada e pronta para conquistar júri e clientes como melhor prato de butiquim no festival.

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Brevidades II

Angra dos Reis de José Cicero Tupinambá


Fez tanto silêncio quanto o chinelo pôde. Aproximando-se como quem se aproxima de um bicho, a senhorinha de pano na cabeça espreitou o noticioso debruçado na mesa do café. Puxou a cadeira sem arrastar e sentou de canto, olhos apertados na letra. Rastreou com o dedo até encontrar aquela que parecia mais amigável. “Agá – ooo”. Dedando, letra por letra, sussurrava. “H com O dá HO, com M... com M dá HOM”. Sentou por inteiro e buscou ajuda no dedo esquerdo. “C... com I...“ Apertou ainda mais os olhos e a distância para o jornal do patrão. “D com I...” respirou “DI... HO-MI-CI-DI-O... Nossa! Que perigo!”.

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Falta o fio comprido ao travesseiro. O traço fino no espelho embaçado. Falta o querer quaresma em fevereiro, num sussurro mordido aqui do lado. Dessa falta toda eu já sou parte, do segredo que é, em si, inteiro. E por inteiro, que é, esse segredo, faz da falta toda só metade. Metade, dois terços, corpo inteiro. De uma falta que é, talvez, saudade. De repente sou fio ao travesseiro, a espiar traço fino e embaçado. Sou querer qualquer coisa em fevereiro, desde que seja do seu lado.

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Carbolitium duas vezes ao dia, mastigo no almoço com papinha. Quando ele chora, às vezes, é Orotato e mamadeira. O primeiro é pra mim, o segundo, às vezes. Isso quando não me tranco no banheiro, uma hora ele para. Ou não, vai chorar para o resto da vida. Dizem que felicidade é a licença, mas maternidade só rima com felicidade na palavra mesmo. E mesmo o pós-parto tem amigos, conheci o Anafranil essa semana. Sou eu que como ele. O Equilid pode provocar aumento de peso. Em mim, não nele, que não para de chorar. Deve ter medo de ficar gordo. Posso afoga-lo na banheira para que não corra esse risco.

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É claro que te acho linda. Se achar não basta, eu vejo isso. E quando ver se torna pouco, fecho os olhos - o olho engana, não quer dizer o que eu penso. Contrario o que vejo pensando no que acho. E te encontro. Cabelos soltos, meia colorida. E pra ganhar teu riso, me apego ao que tenho: essa bossa que não é tão nova, donde empresto palavras bonitas. Pois é, elas não são minhas. E mesmo que fossem, não diria, guardaria para um sussurro. Quem sabe, num fim de tarde em Itapuã.

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*Brevidades é uma reunião de microcontos, recortes crônicos de poucas linhas.

**José Cicero Tupinambá é estudante de Belas Artes na Universidade Federal do Rio de Janeiro e desenha à mão livre desde criança.  Faz pinturas e desenhos de paisagens, retratos, modelo vivo e natureza morta, utilizando várias técnicas.Mais sobre o belo trabalho dele em seu blog.